(Fotografia da minha autoria)
Lembrava-se como se fosse
hoje…
Andava a fotografar.
Ao longe viu o seu andar, desleixado
e pesaroso.
Era um andar sem energia e sem
convicção.
As costas estavam vergadas e
fazia uma corcunda.
De um lado o casaco pendia
mais que o outro.
O cabelo esbranquiçado ‘voava’
ligeiramente.
De saca na mão lá ia.
Sem pressa…
Continuou a fotografar, mas aquele
andar entranhou-se no pensamento. As esculturas que decoravam os edifícios
passaram a ser só isso, simples esculturas.
Tudo perdeu o interesse,
excepto aquele andar.
Continuou a fotografar, quando
deu por si deparou-se com o homem de momentos antes.
Estava sentado.
As pessoas que passavam
olhavam-no com desdém e faziam comentários maldosos. Diziam que ele cheirava
mal, que era maluco, que era mais um sem-abrigo, que provavelmente seria um
bêbado… o que é certo é que não via nada disso naquele rosto.
Mesmo ouvindo estas palavras o
homem permanecia alheio. Não ouvia ou fingia não ouvir. Ou seria de ouvir
tantos comentários repetitivos que se tornaram rotina?
Não sabia. Ele não se
defendia.
O que sabia era que via muito
mais que essas opiniões vãs.
Podia ser um sem-abrigo de
facto, mas o que o tinha tornado assim? Porque vivia de forma tão desleixada?
Viver seria para ele só isso, viver? Um acto de respirar e inspirar? Teria tido
sonhos? Teriam por ventura barrar-lhe oportunidades de seguir o seu sonho?
Teria família? Teria estado sempre nessa situação de ‘sem-abrigo’ ou teria,
como muitos ‘senhores’, ter tudo e de repente ter um nada?
Olhou a posição dele. Estava
encolhido. Vai ao bolso e tira umas moedinhas, lentamente conta. Olhou para os
seus dedos compridos e viu a maneira como as contava. Não queria deixar escapar
nenhuma. Pela forma como as contava agarrava-as como se fosse um tudo, afinal
eram poucas.
Sem mais tempo a perder pega
na máquina e fotografa-o. Ele como momentos antes nem se digna a olhar, não se
importa. Continua o seu afazer sem se alterar.
E continuou a olhar. A fazer
múltiplas perguntas, não o repreendendo não o fazendo menos pessoa que as
restantes, mas de certa forma este desconhecido, que para muitos não tem valor
devido à sua condição não valia nada, tinha despertado a sua curiosidade.
Não sabia a sua história, de
certeza que tinha muitas para contar, mas não o maltratou.
Ninguém sabe…
As histórias que um rosto esconde.
***ANTES DE… Julgar, maldizer,
condenar, fazer pouco dos outros, o que é muito fácil, dignem-se a pensar o que
levou à outra pessoa estar na situação em que se encontra…hoje pode-se gozar
com essas pessoas mas amanhã pode-se estar na mesma situação que elas. Ninguém
sabe o dia de amanhã***
